Ele estava ali, se arrumando, se perfumando, todo cuidadoso com a aparência em frente ao espelho. Espelho que refletia a imagem de um homem que a muito eu não via. Um homem que tentava administrar aquela ansiedade que sentimos quando estamos prestes a encontrar aquela pessoa que faz nosso coração bater mais forte.
Eu ali deitada, o coração apertado, não querendo ver o que eu ouvia, não querendo entender as entrelinhas das atitudes do homem que eu chama de marido. Quando percebi que o tempo estava passando e a hora dele dizer simplesmente – estou saindo – estava chegando tomei coragem:
- Existe outra pessoa?
- Ainda não..... mas existe uma grande oportunidade... estou envolvido.
A resposta que eu não queria ouvi foi pronunciada. A resposta que eu conhecia calou minha voz. Por alguns instantes senti apenas as batidas do meu coração como se ele fosse pular do peito. Em alguns segundos pensei..... choro, grito, brigo, Deus me ilumine...as palavras não saíram imediatamente.
Olhei para ele e meu mundo esta em stand by, paralisada pelo mesmo olhar que durante muito tempo me fizeram perder o rumo..... e naquele momento eu estava sem rumo... mas precisava falar justo eu que sempre tinha uma resposta na ponta da língua, um discurso politicamente correto para tudo.... eu precisava falar... e só consegui dizer:
- Se eu pedir para você ficar, você fica..
A resposta que eu queria ouvir foi pronunciada: Sim... Então fica..... Ele tirou a roupa cuidadosamente escolhido, colocou o velho calção de dormir, furado, e deitou do meu lado.... Nada foi dito..
No fundo nós dois sabíamos que não havia mas nada a fazer, o amor está definhando... mas como diz o poeta: ...” ainda existe o amor que mente para esconder que o amor presente não tem mais nada para dizer”
Ficamos ali, aconchegado um no outro. Um novo filme começou. Os meninos cada um no seu quarto viajando na internet e cada um de nós viajando nos nossos pensamentos.... a solidão batia forte e eu o abraçava tentando acreditar que eu não estava vivendo aquele momento...
De repente as lagrima não puderam ser mais contidas.... Fui tomar banho... Adoro água, adoro sentir a água caindo no meu corpo, no meu rosto... Como diz minha irmã: a gente devia sempre morar perto de um rio, riacho, mar, cachoeira, perto da água. A mudança do seu fluxo, nos mostra o quanto mudamos diariamente.
Ali naquele banho, quando as lagrimas e misturavam a água que molhava meu corpo, a certeza da perda estava tão escondida dentro de mim, que eu não consegui admitir e só me enganava dizendo: Se ele não foi é porque ou não tem ninguém, ou não é alguém importante. Ele ficou, se ficou ainda há uma possibilidade.
Tomei banho de pressa, com medo que quando voltasse para o quarto ele não estivesse mais lá e sim a realidade que eu sabia existir mas não consegui exprimir...
Toda cheirosa, deitei novamente ao seu lado, me acomodei em seu corpo macio e me escondi na ilusão que tudo está normal.... Eu, ele, meus filhos, em casa.
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